sábado, 27 de março de 2010

Desabafo - As três alegrias do ensino

As três alegrias do ensino

Não se fala suficientemente da alegria de ensinar. Muito se comenta a questão dos professores insultados e espancados mas muito pouco - ou mesmo nada – dos professores felizes. Esqueçamos então por um momento, as tristezas e os horrores, muito reais, do meio escolar para pensarmos nos instantes luminosos que transfiguram a aula.

Pois que há milagres, quotidianos ou raros, mas igualmente muito reais, na relação pedagógica. Todos os dias a água pode ser transformada em vinho, os surdos começarem a ouvir, os coxos a andar.

Basta que a palavra seja entendida, que a confiança seja restabelecida e tudo se torna possível.

Três alegrias distintas iluminam o rosto do professor segundo uma hierarquia que percorre os graus da inteligência.

A primeira alegria, elementar, provém da lição bem recitada, do nome retido, do facto registado, da data aprendida. Quando o esforço de memorização é conseguido logo um sorriso de esboça e a esperança renasce. De repente, sob o nosso olhar, o espírito conquista a matéria, a humanidade eleva-se e o progresso faz do outro algo mais do que um ciclo absurdo. É certo que é preciso esperar alguns dias para constatar com segurança a vitória sobre a dispersão e o nada. Em circunstâncias excepcionais, é alguns meses mais tarde que poderemos verificar se a memória resistiu à degradação da energia espiritual e que o aluno recorda ainda o título do livro lido no primeiro trimestre ou os protagonistas do mito grego contado antes da Páscoa.

A segunda alegria, superior, é a que resulta do esforço de compreensão. A inteligência foi solicitada e respondeu. A partilha do sentido teve lugar: quer se trate de uma demonstração de geometria ou da explicação de uma lei natural, a maravilha, sempre inesperada, da interacção aparenta-se a um segundo nascimento. A maiêutica, de que Sócrates se havia feito especialista, é a arte de clarificar a verdade na alma do discípulo. E quanta emoção ao surpreender numa fisionomia até então fechada o despertar da razão!

A terceira alegria, suprema, resulta do esforço de invenção. Enquanto o professor se regozija pelo simples facto de ser compreendido, eis que um acontecimento insólito acontece: uma ideia brota, uma intuição desponta. O golpe do génio atravessou então a espessa atmosfera da sala. Algo de novo apareceu no mundo. O jovem deslumbra o mestre que, incrédulo, esconde o rosto. E toda uma existência de labor pedagógico se vê assim recompensada por essa surpresa divina.

Cristina Robalo Cordeiro

Vice-reitora da Universidade de Coimbra


Após ter lido o correio electrónico enviado pelo amigo JP Chantre, já há alguns dias, com este texto fiquei a meditar nisto e apesar de andar sem cabeça para grandes meditações ou elaboração de devaneios mais arrojados, resolvi publicar este texto no qual concordo em parte.

Todas as alegrias aqui apontadas foram sem dúvida o que mais me apaixonou quando comecei a leccionar, tendo eu sempre negado querer ser professora pois eu gosto muito do mundo empresarial e de todo o reboliço que isso sempre me provocou nas ideias e nos meus planos de futuro.

Contudo, quando comecei a dar aulas todos estes pormenores aqui deixados pela Vice-reitora da Universidade de Coimbra, Cristina Cordeiro, despertaram em mim esta paixão. Contudo porém eu ainda não cheguei lá e a realidade com que os professores do ensino não superior se deparam são bem diferentes das nossas, questões bem mais complexas, como sendo a questão afectiva, social e multicultural que normalmente passa ao lado desses docentes. Complexas mas muito apaixonantes para mim, confesso.

Hoje a escola, reflexo da sociedade em que vivemos e das medidas tresloucadas com que nos vemos todos os dias em mãos obrigados a fazer, começam a matar esta paixão.

Reina a insatisfação pois é cada vez maior o desinteresse, o respeito, o fluir de ideias e o querer ser mais e melhor.

Eu também tive a idade dos meus alunos e não vai há tantos anos assim e lembro-me perfeitamente de sempre me ter sido passada a mensagem de querermos ser os melhores, não só pelos meus pais como pelos meus professores. Tirar 13, 14 era razoável porque havia os 18 e 20 em número considerável.

Felizmente há excepções que nos fazem manter a quentura no coração, mas a continuar assim duvido que haja médicos com compaixão, professores com dedicação e qualquer outro funcionário público ou privado que se vê aniquilado todos os dias por ideias anormais e pouco brilhantes, onde reina a lei de olhar para o próprio umbigo e sem margem para tempo de ver o que vai em redor.

Não sendo eu muito alta, felizmente consigo ainda ver o que vai no andar de baixo e espreitar para o andar de cima.

Esta semana decorreu na escola onde trabalho a Semana Aberta, é uma escola Secundária e foi bonito de se ver toda a comunidade da escola a mostrar e dar a conhecer a todos o que de bom se pode fazer ainda hoje nas escolas, e como ainda temos alunos brilhantes.

Sei que não temos mais alunos brilhantes, pois muitos infelizmente não têm em casa quem oriente, não conseguem ter visão de futuro porque tudo que se lhes apresenta nos vários órgãos de comunicação social é mau.

É urgente dar esperança a estes jovens, motivá-los. Mas vos garanto que não é fácil quando chegam a casa e a barriga não fica satisfeita, os pais não têm tempo, dizem, para os ouvir e na rua vêm o crime imperar, os maus sair vitoriosos, a justiça a não funcionar, os alunos mal comportados serem protegidos em detrimento dos bons e aplicados.

Enfim, gostava de manter a chama acesa mas não sei se consigo lutar por muito mais tempo pelos vários alunos que todos os anos se me apresentam e se têm transformado “amigos”. Vejo-os ansiosos por melhorar mas encontro-os na maior parte das vezes já tarde, ou com vícios instalados demasiado difíceis de ultrapassar e como a minha Mãe sempre me diz, não consigo mudar o Mundo sozinha por muito que tente fazer bem o meu papel.

3 comentários:

O ovo estrelado disse...

...mesmno que no meio de muitos rostos, consigas fazer algo por um, já conseguiste mudar o mundo sozinha! o importante é não desistir, pois desistir significava que deixavas de lutar com alegria!

ALFF disse...

Mas não é nada fácil Tony e tu sabes bem pois conversamos imenso sobre o assunto. Trabalhar e lutar contra corrente é desgastante.

Anónimo disse...

Absolutamente de acordo com tudo isso... :)


Paulo Dionísio